Liberdade ou Libertinagem? O prazer acima de tudo. | Portal Mosaico

Liberdade ou Libertinagem? O prazer acima de tudo.

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O acontecimento de Santa Maria no Rio Grande do Sul, que chocou o país inteiro pelas mortes das 238 (duzentos e trinta e oito) pessoas, foi causado pela a concepção do lucro acima de tudo, considerando que a boate Kiss possuía um alvará de funcionamento (questionável, com suspeita de corrupção passiva na concessão) para 700 (setecentas) pessoas, e no dia da fatalidade continha o dobro dessa capacidade estipulada; sem considerar as precauções normais de segurança contra incêndio, como extintores vazios.

O aspecto filosófico e sociológico desse fato social é reflexo dos valores do cotidiano urbano brasileiro. A concepção do prazer acima de tudo. “Acima de tudo” consiste na flexibilidade dos valores morais mínimos como respeito mútuo e respeito a si, em prol de algo que provoque o prazer, seja o lucro, o sexo, as drogas, a supressão da carência, do complexo de inferioridade e a aceitação social de si.

A veneração ao sexo desacerbado é corriqueira, passando a ser normal a troca de fluídos corporais com uma pessoa desconhecida, sendo esta a razão (ser uma pessoa desconhecida) que motiva a autopreservação. A pessoa que se preserva, que toma precauções sociais busca conhecer os valores comportamentais de um terceiro, assim sabendo se este se cuida; além do risco da respeitabilidade social, já que independente de posições liberais e conservadoras, nenhuma pessoa gostaria de se envolver com quem não toma as precauções para a manutenção de si, seja de saúde, seja social.

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Atrelado a isso está a concepção de que o jeito certo, intenso de “viver a vida” é ser libertino, pois o estado solteiro de relacionamento não vincula moralmente ninguém a ninguém, podendo, sem encargo de consciência, se envolver com quem quiser, na hora que quiser, sendo essa a justificativa da essência dessa conduta, confundindo liberdade (capacidade de escolha) com libertinagem (falta de autopreservação fundada na quantidade, intensidade e critérios de escolha de um parceiro em um relacionamento social).

Certamente deve ter escutado expressões como “eu era solteiro, ué!”, justificando a linha de raciocínio de que só deve ter zêlo consigo (saúde e social), se estiver em um relacionamento sério. Dessa forma entende-se que exista duas posturas pessoais na mesma pessoa, já que solteira é uma coisa e compromissada é outra (Geralmente esse tipo de pessoa não gosta de comentar sobre o passado; o histórico de relacionamentos dela, quando acaba por entrar em um novo relacionamento, ludibriando a precaução alheia).

Vale mencionar a intensa publicidade voltada a esse comportamento pelas campanhas publicitárias de bebidas alcoólicas, em que o interessante de viver a vida é ser solteiro, aberto a relações sem restrições morais para as experiências sociais, utilizando a bebida alcoólica (substância em excesso deturba as reações motoras e as percepções cognitivas (todos tem conhecimento disso, daí a razão do mal do bêbado ao volante), como combustível para a concretização desse objetivo.

Quando envolve a subjetividade humana não existe certo e errado, mas concepções semelhantes e diferentes. O aspecto relevante é o zêlo próprio. A relação de todo esse contexto social com o fato social que ocorreu em Santa Maria é o prazer individual, o lucro, acima do respeito mútuo e do respeito próprio, acima de tudo.

Imagem: Divulgação/Internet

Eduardo Salles

Jornalista; idealizador, co-fundador, administrador e editor do Portal Mosaico; colunista do site musical Rock Noize (Coluna S&S); colunista do site esportivo Vida de atleta; Advogado; Membro efetivo da comissão de Direitos Autorais da Ordem dos Advogados do Brasil secção São Paulo; Professor de Filosofia e de Sociologia. Amante do estudo do comportamento humano, além de moda, games, música alternativa e suas vertentes dos anos 80 e 90, Synthpop/Eletropop, e o atual Indie rock. Instagram: lordsalles; [email protected]

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